Courtney x Grohl (Com quem você tomaria uma cerveja?)



Um dos diferenciais do My Space em relação as demais comunidades virtuais foi colocar ao acesso do publico as páginas pessoais de celebridades (ou quase) do mundo da música. Essa aproximação , no entanto, tem lá seus efeitos colaterais.
Antigamente, cabia à imprensa especializada vilanizar ou elevar a categoria sacrossanta este ou aquele artista, hoje em dia , sem o aditivo inflamável da palavra impressa, passamos a enxergar nossos artistas com olhos demasiadamente humanos, através de suas próprias palavras e sem tendencias impostas.
Desta forma, temos a oportunidade de tirar o peso das influencias em nossas conclusões. Um exemplo disto é o embate que vem acontecendo entre a polêmica cantora-e-atriz-e-viúva-de-Kurt Cobain , Courtney Love e o crítico do Jornal Village Voice, Rob Harvilla, que , em uma resenha sobre o show do Foo Fighters no Madison Square Garden, em Nova York, iniciou o texto declarando : “No Rock de Arena, como na política, nos votamos no candidato com quem gostaríamos de tomar uma cerveja”
O texto tece loas a apresentação da banda, a qual o crítico exalta as qualidades e conclui:
“E agradeço a deus por isso, por esses dias em que Dave vem alcançando unanimidade, quando Existem poucas preciosas bandas de rock americanas, que são deixadas de lado pela indústria dos indicados ao Grammy e capas de revistas chamativas” .
A Crítica enfureceu Courtney, que em sua página no My Space, revidou:
“Tomar um cerveja com quem?
Eu jamais iria votar em um presidente baseada no fato dele ser uma pessoa com quem eu gostaria de tomar uma cerveja. Isto é enlouquecedoramente sexista, e mais que isso, é burrice! Cerveja nem mesmo é bom”
e continua:
“Eu já fiz um monte de coisas com um monte de Roqueiros de Arena, entre elas: fazer sexo, cheirar uma carreira, cortar frutas para uma salada de frutas, visitar a casa deles no sul da frança...etc”
No fim , Courtney conclui que se trata de um ponto de vista do crítico e que está bastante despontada com uma instituição (o Village Voice) que enaltece uma banda medíocre.
O Foo Fighters pode não ser a banda mais original do planeta, e nem o pretende , é uma banda honesta, cujo carisma depende em parte da empatia que Dave Grohl, seu líder , exerce sobre o público, através de clips divertidos e de músicas bem sacadas, que não se atém a ditadura do momento, talvez daí venha seu sucesso, da atemporalidade de suas canções.
Courtney tem um estigma de malandragem que descredencia qualquer opinião sua a respeito de qualquer assunto, seu melhor disco, Live Thoug This, é uma obra do Nirvana, o sucessor, um disco de Billy Corgan.
O fato de ter sido Grouppie durande toda a década de 80 a proporcionou estar sempre bem cercada, e como nunca foi tola ,ela soube canalisar e tirar proveito de suas companhias.
No entanto,a seu respeito, não se vê nenhum comentário positivo na mídia a um bom tempo, seus projetos, se existem ,não repercutem e suas ultimas aparições na mídia, invariavelmente, estiveram relacionados ao abuso de substancias ilícitas.
Demonstrou ser boa atriz e faz bem o papel de Rocker Outsider, mas uma olhada mais próxima desmonta o personagem.
O embate público entre ela e os demais remanescentes do Nirvana é antigo, vem desde a morte de Cobain e cada vez fica mais evidente o incomodo que é para ela o sucesso da banda de Grohl.
Agora, pelo My Space, ficou mais fácil encontrar o buraco da fechadura.

Para entender a polêmica, clique nos links abaixo:

Matéria do Village Voice


My Space de Coutney Love

Madonna 2008 (De novo e Sempre !)



A César o que é de César!
apesar de muitos torcerem o nariz, a indústria em torno da cantora Madonna não dá sinais de arrefecimento.
O novo álbum da cantora, intitulado Hard Candy, já tem data de lançamento: será 29 de abril, de acordo com a agência de notícias Reuters.
De acordo com o comunicado, Madonna afirmou ter adotado o tema por "adorar doces".
"Tem a ver com a sobreposição de algo com força e doçura, como Madonna explica: 'I'm gonna kick your ass, but it's going to make you feel good.'
(algo como 'Eu vou acabar com você, mas você vai se sentir bem')", informa a nota.
O primeiro single do sucessor de Confessions on a Dance Floor, de 2005 será "Four Minutes" que ao lado de "Candy Store" integrará a lista completa de músicas, que ainda não foi divulgada.
Este será o último álbum de inéditas de Madonna pela Warner.
A cantora, que recentemente assinou um contrato de dez anos e 120 milhões de dólares com a novata Live Nation, irá lançar ainda uma coletânea de sucessos pela gravadora.
O álbum tem a participação de Justin Timberlake e foi produzido por Pharrell Williams, Timbaland e Nate "Danja" Hills.
Timberlake tem participação em diversas faixas do novo albúm e irá também apadrinhar a entrada da cantora no Rock and Roll Hall of Fame no próximo dia 10 de março ,em uma cerimônia que acontecerá no hotel Waldorf Astoria de Nova York e cujo homenageado será John Mellencamp, que será apadrinhado pelo cantor Billy Joel.
O Rock and Roll Hall of Fame, com sede em Cleveland (Ohio) ,homenageia nomes de destaque na história da música pop e conta com um museu onde são expostas lembranças, roupas e instrumentos originais das estrelas musicais.
Esta distinção somente é concedida a artistas que gravaram seu primeiro disco a pelo menos 25 anos antes de sua nomeação.
O disco de estréia da Madonna é de 1983.
A cantora, que recentemente estreou como diretora de cinema , disse que seu filme "Filth And Wisdom" (obscenidade e sabedoria), longa-metragem sobre um imigrante ucraniano em Londres irá diretamente para a internet, onde poderá ser baixado,pois acredita que desta forma ele será melhor aproveitado,.
"Estive em negociações com o iTunes para que eles se encarreguem dos downloads. Quero que o maior número possível de pessoas veja meu filme. Não faço nada de maneira convencional", Madona, 49 ,declarou ainda:
"Sou uma principiante. Somente o fato de eu ser uma pessoa estabelecida em uma área não significa que deva fazer o resto de meus projetos com esse mesmo perfil".
"Filth And Wisdom" estrou mundialmente na semana passada no Festival Internacional Berlim, ao lado do filme brasileiro "Tropa de Elite", que saiu vitorioso do festival.
O filme tem como protagonista o músico A.K., um imigrante ucraniano em Londres (vivido pelo músico ucraniano Eugene Hutz, líder da banda de gypsy punk Gogol Bordello). A.K. tem uma banda e distribui demos de seus discos, tentando chegar ao sucesso. Enquanto ele não vem, o músico garante o dinheiro do aluguel com clientes que lhe pagam por encontros sadomasoquistas.
Ele divide um apartamento com Holly (Holly Weston), que ama o balé, mas tem um emprego como dançarina da noite; e com Juliette (Vicky Mclure), que sonha em ajudar as crianças famintas da África, enquanto surrupia frascos da farmácia onde trabalha.
Enquanto Michael Jackson se vale do relançamento de seu álbum de 25 anos atrás para tentar voltar às paradas, Madonna dá sinais que para ela a fonte , além de longe de secar, continua jorrando.
Ponto para ela!
Para matar saudade e fazer um comparativo, abaixo os links do primeiro album e do último (clique sobre o nome do albúm para ouvir!):
Primeiro Albúm (Completo):

Madonna 1983



Último albúm, para ouvir individualmente (música por música):

Confessions on a Dance Floor

Brit Awards 2008




Entre o Grammy e o Oscar , essa semana um sopro de renovação surgiu entre as grandes premiações da indústria do entretenimento, o Brit Awards.
Enquanto as outras premiações privilegiam quem se destacou em termos de venda, o Brit Awards tem um perfil mais próximo do Festival de Cinema de Berlim, apostando mais em tendências e menos no que já foi assimilado pelo grande público.
Apesar de Amy Winehouse ter brilhado no Grammy e ter participado ao vivo da premiação do Brit, quem despontou como sucessora no reinado pop-feminino-de-bom-gosto foi a também britânica Adele, eleita melhor artista pela escolha da crítica.
Adele tem uma bela voz, envereda também pelo Soul e seu disco, 19, tem recebido honrosas críticas imprensa afora, alguns a consideram uma Amy sem drogas.
Nas demais categorias, bem representadas, não houveram grandes surpresas, tendo o Artic Monkeys levado os troféus mais importantes ,Grupo e Album, Os mesmos prêmios que o Foo Fighters angariou como artista internacional.
Paul Macartney recebeu premio especial por sua contribuição à música britânica e resumiu bem o espírito da premiação : Pra mim, a música britânica é a melhor!
A cerimônia foi comandada pela família Osbourne e teve um de seus grandes momentos quando, em uma inusitada parceria, a cantora Rihanna e o trio Klaxons mandaram uma versão de "Umbrella", grande sucesso de Rihanna, mixada com "Golden Skans", do Klaxons.
Houve ainda a participação do artista revelação Mika, que se uniu a Beth Ditto, do Gossip e a cantora australiana Kylie Minogue, melhor artista feminina internacional, que se apresentou na cerimônia, cantando "Wow". Paul McCartney fechou a noite com uma apresentação que incluiu "Hey Jude", "Lady Madonna", "Dance Tonight", "Live and Let Die" e "Get Back”
Mas a noite foi dela, a cantora Adele, mais nova mania do Reino Unido, que de acordo com os críticos será o grande estouro do ano.
O link para o album está no final da página, após a lista dos indicados e vencedores do Brit Awards 2008.

Indicados & Vencedores (em Negrito) do Brit Awards 2008:
Artista masculino
Jamie T
Mark Ronson
Mika
Newton Faulkner
Richard Hawley

Artista feminino
Bat For Lashes
Kate Nash
KT Tunstall
Leona Lewis
PJ Harvey

Grupo
Arctic Monkeys
Editors
Girls Aloud
Kaiser Chiefs
Take That

Álbum

Arctic Monkeys - Favourite Worst Nightmare
Leona Lewis - Spirit
Mark Ronson - Version
Mika - Life in Cartoon Motion
Take That - Beautiful World

Música
The Hoosiers - "Worried About Ray"
James Blunt - "1973"
Kaiser Chiefs - "Ruby"
Kate Nash - "Foundations"
Leona Lewis - "Bleeding Love"
Mark Ronson - "Valerie' featuring Amy Whinehouse"
Mika - "Grace Kelly"
Mutya Buena - "Real Girl"
Sugababes - "About You Now"
Take That - "Shine"

Artista revelação
Bat For Lashes
Kate Nash
Klaxons
Leona Lewis
Mika

Apresentação ao vivo
Arctic Monkeys
Kaiser Chiefs
Klaxons
Muse
Take That

Artista internacional masculino

Bruce Springsteen
Kanye West
Rufus Wainwright
Timbaland

Artista internacional feminino

Alicia Keys
Bjork
Feist
Kylie Minogue

Rihanna

Grupo internacional

Arcade Fire
Eagles
Foo Fighters
Kings Of Leon
The White Stripes

Álbum internacional
Arcade Fire - Neon Bible
Eagles - Long Road Out Of Eden
Foo Fighters – Echoes, Silence, Patience & Grace
Kings Of Leon - Because Of The Times
Kylie Minogue – X
Escolha da crítica:
Adele
Clique para baixar:

Adele -19


Sobre Nick Drake e a Morte de Heath Ledger


Lí recente uma matéria no Google News que mencionava uma interessante associação entre as mortes ator Australiano Heath Leadger e do Songwriter Inglês Nick Drake.
Drake, para quem não conhece, foi um brilhante e obstinado compositor e cantor Inglês, cujo suposto suicídio, em 1974, em muitos pontos lembra a polêmica em torno da morte de Ledger.
Assim como Ledger, Drake também fora encontrado morto e pelo mesmo motivo, intoxicação por medicamentos para dormir, da mesma forma, não havia bilhete de despedida .
Nicholas Rodney Drake nasceu em 19 de junho de 1948, em uma família de classe média-alta em Burma,na Birmania. Aprendeu a tocar piano quando criança e começou a compor suas primeiras melodias. Desenvolveu interesse por esportes, Foi capitão da equipe de rugby, Aprendeu clarinete e saxofone e se apresentava com a banda da escola.
Entre 1964 e 1965 ele formou uma banda com outros quatro amigos intitulada The Perfumed Gardeners de onde foi logo expulso por seu gosto musical, visto como pop demais pelos outros integrantes.
Ainda em 1965, Drake pagou treze libras esterlinas por seu primeiro violão e logo se aventurou no campo dos experimentalismos sonoros , desenvolvendo uma afinação própria.
Em setembro de 1967 conheceu Robert Kirby, estudante de música que orquestraria muitos arranjos de corda para seus dois primeiros discos. Nesta época, Drake descobriu o folk inglês e outros compositores ,sendo influenciado por artistas como Bob Dylan, Josh White, Phil Ochs e Jackson C. Frank.
Começou então a realizar apresentações em clubes locais e cafés de Londres e em fevereiro de 1968 foi descoberto por Ashley Hutchings, da banda Fairport Convention. Hutchings ficou impressionado com sua habilidade como guitarrista e Nick foi recomendado a Joe Boyd, famoso por suas produções, entre elas a de Pink Floyd e Jimi Hendrix.
O primeiro Album, Five Leaves Left, foi lançado em setembro de 1969. A Revista britânica Melody Maker referiu-se ao álbum como "poético" e "interessante" ao passo que a NME escreveu em outubro que "quase não havia variedade suficiente para torná-lo divertido". Foi recebido com pouco entusiamo, a exceção do programa de John Peel, que ocasionalmente tocava algumas faixas. Drake se mostrou descontente com o modo com que o disco foi impresso, com a ordem de execução diferente das faixas e com a omissão de trechos gravados no estúdio.
Embora o reconhecimento gerado por Five Leaves Left tenha sido pequeno, Boyd estava interessado em gravar um novo disco com uma dinâmica parecida. Bryter Layter, novamente produzido por Boyd e tendo Wood como engenheiro, é mais alegre, com elementos do jazz. Como o seu antecessor, o álbum tem a ajuda músicos da banda Fairport Convention e contribuição de John Cale. As críticas foram novamente variadas: enquanto a revista Record Mirror elogiou Drake como "um ótimo violonista, límpido, e acompanhado com suaves e maravilhosos arranjos", a Melody Maker descreveu o álbum como "uma mistura de folk e uma desagradável fusão jazzística"
Embora a Island não quisesse um terceiro álbum, Drake procurou Wood em outubro de 1971 para começar a trabalhar no que seria seu último disco.
As sessões duraram duas noites, tendo apenas Drake e seu engenheiro no estúdio. As sombrias faixas de Pink Moon são curtas, as onze canções do disco têm apenas vinte e oito minutos. Drake tinha manifestado descontentamento com o som de Bryter Layter e acreditava que cordas, bateria e saxofone, criaram um som muito cheio, muito elaborado.
Após a conclusão do álbum, Drake entregou as fitas-mestre no balcão da Island Records, colocou-as junto a recepcionista do balcão e saiu sem falar com ninguém.
As fitas ficaram lá durante o fim de semana e só foram percebidas mais tarde, na outra semana. Voltou a casa dos pais e o seu estado psicológico piorou bastante, se recusou a promover a divulgação do álbum, Sofreu uma crise nervosa que o deixou hospitalizado por cinco semanas Decidiu largar a música e tentar arranjar um emprego, Desistiu disso, e no resto de seus dias fazia viagens ocasionais a Londres e à França, onde visitava amigos.
Em julho de 1974, Nick procurou Boyd dizendo que tinha algumas canções para gravar, essas canções viriam a ser seu quarto álbum, mas ele desistiu das gravações e não teve tempo de retomá-las. Depois de ter passado a tarde visitando um amigo, fora dormir cedo e a certa hora da madrugada deixou o seu quarto para ir à cozinha - sua família recorda que ele fazia isso inúmeras vezes- retornou entâo ao seu quarto um pouco mais tarde e tomou alguns comprimidos para "ajudar a dormir". Por conta da dificuldade em adormecer, muitas vezes ficava até altas horas da noite tocando e escutando música, em seguida dormia boa parte da manhã. Por volta do meio dia sua mãe foi acordá-lo porque ele parecia estar dormindo há muito tempo...". segundo ela Nick ocupava toda a cama por conta de sua estatura, e que a primeira coisa que observou foram "suas longas pernas... a sua longa perna". Nick Drake havia morrido.
Não houve nota de suicídio, porém, uma carta dirigida a Sophia Ryde, a possível namorada. Nela, haviam apenas o versos "Now we were, we are every were", retirados da canção "Which Will", de seu último álbum. No inquérito de morte, o investigador notificou "intoxicação aguda de amitriptilina auto-administrada quando sofria de uma doença depressiva", e concluiu o veredicto como suicídio, fato contestado por alguns membros de sua família.
Heath Ledger era obcecado por Nick Drake, declarara sua admiração em diversas ocasiões, chegou inclusive a gravar uma homenagem ao ídolo, em um vídeo onde afoga-se em uma banheira ao som de Black Eye Dog.
A estranha relação entre as duas mortes é um desses casos onde as circunstâncias importam menos que as coincidências.

Abaixo estão os links para admirar a genial e sensível obra de Drake
Recomendo em especial Pink Moon, uma obra prima.

Bryter Leyter


Pink Moon


Five Leaves Left



Special Thanks to Marcel Cruz do

Sacundinbenblog

Thriller : 25 Anos Depois

Em 1984 eu tinha nove anos e lembro que assisti escondido ao clip de thriller, em sua reprise, no fantástico ! havia propaganda o tempo todo na TV, a música já tocava na rádio e principalmente, Michael Jackson, naquela época, estava em todo canto.Como só tinha nove anos, naturalmente, não tinha como mensurar  o impacto do disco  e nem dos clips na cultura pop e muito menos imaginar quem tinha sido aquele rapaz negro que dançava  como eu nunca tinha visto.Minha mãe já havia visto o clip, na semana anterior e o considerou inadequado para crianças, mas eu achava uma sacanagem só eu não ter assistido ainda, todo mundo na escola só falava daqueles zumbis dançantes, do clima de filme de terror, alguns só conseguiram dormir devidamente acompanhados por suas mamães, mas ,claro, não admitiam.Os comentários me aguçavam  a imaginação, era um clip? Um filme de horror? Um quadro do fantástico? Ia virar série? Era tudo uma incógnita ,ao mesmo tempo lúdica e  excitante.As amigas da minha mãe, adultas chatas, falavam que tinham ficado chocadas, que crianças choravam, ficariam traumatizadas, que era um absurdo um negócio daquele passar num horário onde haviam crianças assistindo ( e olhe que na época lembro de dormir cedo, ao menos pelos critérios atuais). Não imaginava aquele rapaz que passava uma imagem tão tranqüila na TV, cara de bom moço, que tinha umas musiquinhas tão legais tocando na rádio, como uma figura ameaçadora, um criminoso em potencial, mas acho que a partir dali comecei a entender na prática um fenômeno que só conheceria na teoria uns bons anos depois, o Marketing.Essa semana ouvi o álbum comemorativo de 25 anos de lançamento de Thriler e aquele garotinho de nove anos saiu por aí cantarolando aquelas musicas que fazem parte do inconsciente coletivo Pop, todas elas. Falar sobre Thriler, o álbum , é redundante, sobre seu impacto na cultura pop, desnecessário, o disco mais vendido da história da música não só consolidou Michael Jackson como astro como trouxe a tona  toda uma série de efeitos colaterais, para o bem e para o mal.À época Recém criada MTV teve grande parte da culpa, pois , também como fenômeno recente , precisava de lenha para sua fogueira, e Michael era uma fonte inesgotável.A cultura negra norte americana, ainda sem a paranóia do politicamente correto, ganhou o mundo, através do Break, da moda, da música e para onde quer que se virasse, havia-se Michael Jackson, da propaganda da Pepsi, - onde ocorreu o fatídico acidente que o fez perder parte dos cabelos -  ao filme ET, cuja narração original de Michael fora subtraída da versão final, oficialmente por problemas contratuais com a Sony, oficiosamente para não ofuscar o filme.  We are the World, we are the children, e lá estava Michael também.Em 1987, ainda apoiado em uma bilionária campanha de marketing, Michael lançou BAD, um disco que nem de longe se comparava ao êxito anterior. Thriller não era o primeiro disco de Michael, longe disso, era o 6° de sua carreira solo, desde que abandonara o Jackson 5, mas incorreu na síndrome no segundo album, aquela onde o cantor ou banda criam uma expectativa tão grande em relaçâo ao próximo trabalho que qualquer deslize pode ser fatal, e no caso de BAD houveram vários deslizes, ainda assim, o albúm teve vendagem astronômica, perto de 36 milhões de cópias, e emplacou pelo menos 5 músicas na primeira posiçao nos EUA.Durante a divulgação de BAD, a publicação de excentricidades sobre a vida de Michael adquiriu contornos enfáticos. Verdades e calúnias  tornaram-se parte do mito criado em torno de Jackson. Foi noticiado, por exemplo, que o astro tentou comprar os ossos e roupas de John Merrick, o Homem Elefante. Que ele teria uma parte do próprio nariz, retirada em cirurgia plástica, conservada em uma jarra dentro de casa. Que dormia em uma câmara hiperbárica para retardar o envelhecimento.O que se seguiu após, de consideráveis fracassos comerciais à famigerada perseguição dos Paparazzi, dos inúmeros escândalos sexuais aos casamentos, só aumentavam a percepção de alguém infeliz e sufocado com pelo próprio sucesso.Hoje com tantas Amys e Britneys soltas por aí com uma garrafa na mão e muitas drogas na cabeça, Michael Jackson se tornou desinteressante para as colunas de fofocas e talvez seja por isso que a reedição de Thriller seja tão bem vinda.Após os últimos 20 anos de infelizes incursões pelas páginas policiais e da divulgação de suas excentricidades, de calunias e erros crassos de auto promoção,  finalmente temos a oportunidade de ouvir  Michael Jackson fazendo o que ele sabe fazer como poucos: a música, e de quebra, em sua melhor forma!
Para ouvir clique

AQUI

REM- Accelerate


Accelerate, o novo álbum do REM, com previsão de lançamento la fora para 1° de Abril (Dia da mentira, por aqui)nem vazou direito e já vem causando Ansiedade nos fãs da banda. Quem ouviu garante que é o trabalho mais visceral em anos, com sonoridade muito próxima dos primeiros álbums .
Para aguçar o paladar, vai uma prévia da capa (acima) e um vídeo da música (abaixo), até agora conhecida por Disguised ,gravado em Dublin em 30 de Junho 2007.

Algumas curiosidades sobre o REM:

- Primeiro show da banda que se tem notícia: 5 de abril de 1980

- A Banda vem de Athens, mas nem todos nasceram por lá. Stipe e Mills por exemplo.

- Uma das primeiras coisas que Stipe percebeu (e gostou) foi a sobrancelha de Bill Berry. Tanto que fez questão de colocar na capa do Life´s Reach Pegeant"

- Stipe é formado em belas artes.

- Os dois primeiros singles lançados pela banda foram: Radio Free Europe e Sitting Still

- Michael Stipe admite que com o passar dos tempo - a banda foi desacelerando o ritmo. Motivo ? Não confiavam no próprio taco.

- Peter Buck é pai de duas gêmeas e só aprendeu a tocar guitarra aos 21 anos de idade.

- Mike Mills era o "nerd', Um músico por excelência. Era amigo de infância de Bill Berry.

- A banda só deu conta de que estavam "realmente" fazendo música qdo escutaram pela primeira vez "Perfect Circle".

- Dia 28 de abril é o dia mundial do REM numa pequena cidade dos EUA. Foram condecorados devido a um show que marcou por lá.

- REM não participa de nenhum evento que tenha patrocínios de empresas não ecologicamente corretas...Vide cigarro, agressão ao meio ambiente, matadouros e etc...

- Esse é um dos motivos nas quais a banda nunca veio para um "Hollywood" Rock ou "Free" Jazz.

- A banda tocou certa vez num cubículo e só avisou aos amigos. O nome dado na entrada era: Hoje show com "Bingo Hand Job"

Obs: O show foi de graça e teve gente se matando quando soube que o REM tocara ali tão perto e não fôra.

- Certa vez, Kurt Cobain (de quem Michael era muito amigo) admitira que o sonho dele era gravar um álbum que estivesse à altura de um "REM"

- Tanto foi que a música "Let me in" (monster) é dedicada e sobre a morte de Kurt. A guuitarra tocada tanto no estúdio como no show era de Kurt. Sua viúva, Courtney Love, deu para a banda. E quem toca é o Mike Mills (baixista)

- O ex-baterista Bill Berry teve um ataque de aneurisma em pleno show. Isso assustou a banda. Algum tempo depois o baterista sairia da banda alegando cansaço e desânimo. A banda nunca o substituira. Sempre contrata os bateristas.

- Michael foi submetido a uma cirurgia de hérnia de disco na mesma época do incidente com Bill Berry.

- Stipe é dono de uma produtora de cinema. Desta saíram filmes como "Quero ser John Malkovich" e "Velvet Goldmine".

- Peter Buck e Mike Mills têm uma banda paralela chamada "Hindu Love Gods"

- O álbum Life´s Reach Pegeant foi considerado por Robert Plant (Led Zeppelin) um dos maiores discos feitos.

- O título do disco "murmur" é esse, pois Michael afirmara que a palavra (murmur) é uma das poucas no mundo que varia quase nada a pronúncia em diversos idiomas

- A banda quase se separou em 85 - em meio ao Fables Of Reconstruction - devido a turbulências entre os integrantes. Em tempo: o álbum foi gravado em Londres.

- Um dos maiores fãs (famosos) da banda é o cineasta Win Wenders.

- Lançado em 83, Murmur foi aclamado como melhor álbum pela crítica. Batendo U2 e Michael Jackson. O que não era pouco se considerarmos que a banda era independente.

- Mike Mills já havia estado no nosso país umas duas vezes. Em São Paulo.
Resolvendo pendências com a Warner daqui. Isso bem antes de 2001. Ano do show.

- Michael conheceu Peter numa loja de discos. Peter, um colecionador (dizem que tem mais de 8.000 vinis) nato trabalhava na tal loja.

- Juntamente com o Sonic Youth, REM foi a banda responsável pela abertura de toda cena independente nos EUA. As famosas "college radios". Todo universitário americano da década de 80 adorava a banda.

-As duas bandas (Sonic Youth & REM) são co-irmãs. Por diversas vezes o baterista do SY tocou no lugar de Bill Berry após a saída desse.

- O álbum "Automatic for the People" foi produzido por John Paul Jones (somente o ex-baixista do Led Zeppelin)

- Mike Mills participou ativamente de uma trilha sonora para um filme que foi cancelado.Depois disso falou que "queria que Hollywood se F****** !!!!

- Morrisey num show em meados dos anos 90 - cantou uma canção do REM. Disse que a banda era ótima e Stipe um cara cool.

- REM, no começo, tocava muito punk. As covers geralmente eram Sex Pistols, Buzzcocks e MC5.

- Stipe considera o disco "Entertainment" (Gang o Four) - um dos maiores clássicos de sua vida. Tanto que no vinil original, fez questão de deixar um depoimento à banda.

- A banda apoiou Clinton nas eleições. E é uma das principais opositora de Bush. (tanto pai como o filho)

- O erro da grafia do "Green" - um 4 em cima do "R" foi sem querer, mas Stipe achou maravilhoso. Pediu para que deixasse.

- Velvet Underground foi a banda que mais covers - foram executadas pela banda. Uma de suas maiores influências.

Agora, o vídeo:



Fonte das Informações: comunidade

REM Brasil


no Orkut.
Special Thanks to: Léo Rocha

No ,Thanks !


Esse mês de Janeiro fiz uma espécie de imersão involuntária no Punk Rock, primeiramente , reli Kill me Please (Mate-me por favor, na edição nacional) e logo depois, me caiu em mãos a coletânea No Thanks! The 70's Punk Rebellion . O livro, escrito por Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain, foi lançado no Brasil em 2004 e
apresenta uma série de entrevistas, em seqüencia cronológica, que recriam todo um painel, da gênese do punk rock à criação da estética visual do movimento, recheado de boas histórias , foi relançado pela L & PM Pocket, em 2005 dividido em duas partes, como livros de bolso facilmente encontráveis em qualquer boa livraria.
Deveria ter funcionado como leitura de verão , acompanhada de uma espetacular trilha sonora , pois a coletânea (cujos links disponibilizo abaixo), cobre de forma precisa e ampla tudo o que melhor foi produzido na época ,estendendo este painel e permitindo uma compreensão musical muito mais rica e elaborada da música que de alguma forma esta relacionada ao movimento,antes , durante e depois de sua concepção, no entanto, terminou sendo mais que isso.
Para mim, num primeiro momento, a definição de movimento Punk se resumia a músicas rápidas, de três acordes básicos com uma letra contundente e uma atitude idiossincrática e marcado por um visual agressivo que em um dado momento, passou a ter mais importância do que a musica,talvez pela limitação imposta pelos tais 3 acordes, que aparentemente engessavam uma criatividade agressiva e crua, vista poucas vezes desde que o termo Rock'n'Roll fora criado.
Essa musicalidade crua contrastava radicalmente com o rock progressivo produzido na época, pretensioso e difícil para não iniciados.
Paralemente, havia o Glam Rock, representado principalmente por Bowie, Roxy Music, T-Rex e New York Dolls e também as grandes bandas, envolvidas em turnês tão milionárias quanto espetaculosas como The Who, Led Zeppelin, Queen,e havia ainda a soma de tudo isso , com apelo adolescente, o KISS.
Porém a parte dos jovens que não se identificava com aquela sonoridade pomposa e inacessível passou a prestar atenção ao trio guitarra, baixo e bateria quando começou a pipocar aqui e ali umas bandas formadas por garotos da periferia , com visual sujo e canções curtas e diretas.
Se o livro inicia a viagem pela Nova York dos anos 60, através da concepção do Velvet Undergroud, a coletânea inicia por Ramones, em um outro extremo, na mesma Nova York, agora nos anos 70, no CBGB, o grande templo do Punk enquanto música.
Dou um salto no tempo, estamos em 2008, o CBGB's já não existe mais e as manifestações musico-culturais mais radicais desta década ainda estão vinculadas às periferias pobres, no entanto num contexto mais violento, individualista e com inevitável apelo racial, tanto faz se através do Funk carioca ou do Miami Bass, do R&B, do Rap ,a temática é semelhante e invariável, sem conotação política , como uma risível alegoria de uma sociedade entregue a ímpetos consumistas e (ou) hedonistas.
- Não que o Punk fosse um movimento casto, longe disso, porém a tensão sexual e repressiva se manifestava pelos seus acordes e pela postura agressiva -
Essa periferia mítica produzida pelos meios de comunicação nos dias atuais é ao mesmo tempo folclórica e assustadora, a agressividade está presente numa tensão social constante, onde garotos brancos empunhando guitarras não tem vez.
Nesse panorama atual ,onde a presidência daquele que foi o maior império econômico do século passado provavelmente será disputada por uma mulher e um negro dentro de uma sociedade esfacelada e sufocada por escândalos e perdas financeiras, o discurso igualitário e quase socialista de facções mais radicais e políticas do Punk soariam ingênuos,como pensei que seria minha leitura de verão.
Não foi, pode ter sido um resgate simbólico e pungente ou ainda uma antecipação nostálgica do buraco onde estamos nos metendo, porém foi mais ruidoso e principalmente, sincero.

VA - No Thanks! The 70's Punk Rebellion CD 1
1. Ramones - Blitzkrieg Bop
2. The Clash - White Riot
3. Nick Lowe - Heart of the City
4. Buzzcocks featuring Howard Devoto - Boredom
5. The Saints - (I'm) Stranded
6. The Damned - Neat, Neat, Neat
7. The Jam - In the City
8. Pere Ubu - Final Solution
9. The Modern Lovers - Roadrunner
10. Television - Little Johnny Jewel
11. The Adverts - One Chord Wonders
12. The Heartbreakers - Born to Lose
13. Iggy & The Stooges - Search and Destroy
14. Mink Deville - Let Me Dream If I Want To (Amphetamine Blues) [Live]
15. X-Ray Spex - Oh Bondage Up Yours!
16. Wire - 12XU
17. Richard Hell & The Voidoids - Blank Generation
18. The Stranglers - (Get A) Grip (On Yourself)
19. The Runaways - Cherry Bomb
20. New York Dolls - Personality Crisis
21. Eddie & The Hot Rods - Teenage Depression
22. The Dictators - Two Tub Man
23. Patti Smith - Hey Joe [Version]
24. Generation X - Your Generation

CD1



VA - No Thanks! The 70's Punk Rebellion CD 2
1. Iggy Pop - Lust For Life
2. The Adverts - Gary Gilmore's Eyes
3. Ultravox! - Saturday Night In The City Of The Dead
4. Buzzcocks - What Do I Get?
5. Blondie - X Offender
6. The Boomtown Rats - Lookin' After No. 1
7. Penetration - Don't Dictate
8. The Fall - Bingo Masters Breakout
9. Patti Smith - Free Money
10. The Jam - The Modern World
11. The Heartbreakers - Chinese Rocks
12. The Damned - New Rose
13. Subway Sect - Ambition
14. Television - See No Evil
15. Stiff Little Fingers - Suspect Device
16. Wire - Mannequin
17. The Vibrators - Baby Baby
18. Richard Hell & The Voidoids
19. The Boys - First Time
20. Dead Boys - Sonic Reducer
21. Magazine - Shot By Both Sides
22. Elvis Costello - Mystery Dance
23. New York Dolls - Trash
24. X-Ray Spex - The Day the World Turned Day-Glo
25. Eddie & The Hot Rods - Do Anything You Wanna Do

CD2




VA - No Thanks! The 70's Punk Rebellion CD 3


1. Generation X - Ready Steady Go
2. The Undertones - Teenage Kicks
3. Ian Dury - Sex & Drugs & Rock & Roll
4. Buzzcocks - Ever Fallen In Love?
5. Suicide - Rocket U.S.A.
6. Devo - Mongoloid
7. 999 - Homicide
8. The Dils - Mr. Big
9. Joy Division - Warsaw
10. The Mekons - Where Were You?
11. The Germs - Lexicon Devil
12. The Rezillos - (My Baby Does) Good Sculptures
13. The Pretenders - The Wait
14. The Weirdos - We Got The Neutron Bomb
15. The Modern Lovers - Pablo Picasso
16. Alternative TV - Action Time Vision
17. Tom Robinson Band - 2-4-6-8 Motorway
18. The Avengers - We Are The One
19. Sham 69 - Borstal Breakout
20. Black Flag - Wasted
21. Ramones - Sheena Is A Punk Rocker
22. Fear - I Love Livin In The City
23. The Boomtown Rats - She's So Modern
24. Rich Kids - Ghosts Of Princes In Towers
25. X - We're Desperate
26. The Dickies - You Drive Me Ape (You Big Gorilla)
27. The Motors - Dancing The Night Away

CD3 Part 1


CD3 Part 2




VA - No Thanks! The 70's Punk Rebellion CD 4


1. Siouxsie & The Banshees - Hong Kong Garden
2. Blondie - Hanging On The Telephone
3. The Rezillos - Top Of The Pops
4. X - Adult Books
5. The Members - The Sound Of The Suburbs
6. Dead Kennedys - California Über Alles
7. The Only Ones - Another Girl, Another Planet
8. The Soft Boys - (I Want to Be An) Anglepoise Lamp
9. Elvis Costello & The Attractions - Radio, Radio
10. The Slits - Typical Girls
11. The Cramps - Human Fly
12. Talking Heads - Psycho Killer
13. The Ruts - Babylon's Burning
14. Sham 69 - If The Kids Are United
15. Stiff Little Fingers - Alternative Ulster
16. The Cure - Boys Don't Cry
17. The Pop Group - She Is Beyond Good And Evil
18. Joe Jackson - Is She Really Going Out With Him?
19. The Undertones - Get Over You
20. Gang Of Four - Love Like Anthrax
21. The Stranglers - Peaches
22. Skids - Into The Valley
23. Johnny Thunders - You Can't Put Your Arms Round A Memory
24. Joy Division - Love Will Tear Us Apart

CD4 Part1


CD4 Part2



Specia Thanks to Eddie, da Comunidade RCD , por ter disponibilizado os links para Dowload.

RIP Heath Ledger

De fato, uma grande perda artística, que será devidamente canalizada pela indústria do entretenimento quando for lançado o próximo Batman, onde o ator interpreta um inacreditável Coringa.
Lamentavelmente os anos 00 já tem um mito.
abaixo uma entrevista quando do lançamento de I'm not There, onde interpreta uma das facetas de Bob Dylan.

Seven Ages of Rock


Depois de uns belos dias de ausência , volto à toca para comentar um ou outro acontecimento musico-cultural que tenha me chamado atenção neste particularmente quente início de 2008.
E uma das primeiras coisas que eu gostaria de recomendar tem um pouco a ver com a proposta do Blog, de comentar as variáveis da música pop, contextualizando e , dentro de um prisma pessoal, analisando os lançamentos e fatos que invariavelmente surgem acerca desta ou daquela banda.
No fim do ano que passou topei com um documentário exibido pela BBC em Junho de 2007 chamado Seven Ages of Rock, mas especificamente, com o episódio 6, Left of The Dial , sobre a cena alternativa Norte Americana em uma linha de tempo compreendida entre o início dos anos 80 até os anos 90.
Esse episódio em particular me tocou pela minha identificação com aquela sonoridade College - uma vez que hoje praticamente tudo caiu num buraco negro chamado Indie - que fora o refúgio dos “deslocados” cultural e musicalmente dos anos 80 e que, nos anos 90, através do REM em uma extremidade e do Nirvana em outra , explodiu para o Mainstream e desvirtuou os conceitos de viabilidade comercial conhecidos até então.
Estão ali, em entrevistas, raras imagens de arquivo, shows, análises e menções mais que honrosas , bandas como Pixies, Husker Du, Replacements, Throwing Muses, Black Flag ,Mudhoney entre outros, capitaneados pelos supra citados REM em uma ponta -O nascimento- e Nirvana em outra –Ascensão e queda -
E o por que de cada uma dessas bandas ocupar a extremidade dessa linha temporal é o mote do documentário mais completo, sensível e profundo que já foi feito sobre o assunto.
Nos anos 80, a estética predominante no Rock Norte americano havia sido a do Metal farofa, aqueles cabelos e maquiagens exagerados que, se por um lado, remetiam a estética Glitter dos anos 70, por outro, não tinha comprometimento com uma linguagem específica e nem com uma musicalidade ou referencias mais elaboradas, era vazia de conceitos e atitudes.
Era manhã na América de Reagan, mas em um circuito fechado de cidades esquecidas no interior Norte Americano, uma cena musical tomava forma, uma cena espontânea e quase acidental cujos mentores e seguidores se esbarravam em uma rota que partia de Athens na Georgia, passava por Greensboro, Madison, Minneapolis e desembocava em Seatle.
E o que eles tinham em comum além do descontentamento e frustração com a política e o apreço a uma sonoridade crua, herdeira do Punk e contaminada por idéias ora politicamente radicais ora semi dadaísta, era o amor a liberdade que a estrada os proporcionava, que a independência dos grandes selos os permitiam, porem, toda liberdade tem seu preço e não tardou para a indústria musical, titubeante naquele início de anos 90, alçar o Rock Independente ao status de prioridade.
It’s the end of the World as we Know it, and i feel Fine, já cantara Michael Stipe no último álbum do REM para o selo independente IRS: Document , como se previsse que dali adiante, a liberdade conquistada pela banda seria cerceada por uma indústria de cultura descartável, que produz e crucifica seu produto com a mesma desenvoltura. Losing My Religion, do disco Out of Time, de 1990, alcançou os píncaros das paradas, sendo repetida a exaustão, assim como a controversa (para os fãs) Shine Happy People. O golpe foi maior , porém, no ano seguinte, quando sem mais nem menos, Nevermind, de uma obscura banda de de Seatle, sem nenhum hit anterior e proveniente de um pequeno selo independente, Sub Pop, tomou de assalto FM’s, MTV e toda pauta de revistas dedicadas ao gênero, era o início do fim.
O sucesso de Nevermind criou uma expectativa asfixiante sobre a banda, que não havia projetado e nem se preparado para aquilo e cujos efeitos colaterais teriam o peso de uma espada sobre a cabeça de seu líder, Kurt Cobain.
De repente pipocaram aos montes bandas de rock alternativo com musicalmente pouco ou nada em comum, exceto o fato de serem Norte Americanas, oriundas de selos independentes e terem percorrido trajetória semelhantes.
Pearl Jam, Mudhoney, Soundgarden, Alice in Chains e toda uma geração logo foram disputados a peso de ouro pelas gravadoras e rotulados pela imprensa de Grunge, algo como lixo, lixo da sociedade pós capitalista , da era Reagan, regurgitado e comercializado em reluzentes embalagens na era Clinton, com um diferencial de mercado, um selo de qualidade involuntário, o carimbo da censura através do aviso: contém letras impróprias.
Por não se tratar de um movimento e não possuindo manifesto próprio, e talvez até por isso mesmo, o Grunge ressucitou a intenção de Viviene Westwood quando juntamente com Malcom Maclaren tramaram o Sex Pistols: se apropriar de uma linguagem musical e lançar uma tendência estética.
Porém a Londres dos anos 70 era multi facetada, colorida de um lado e suja de outro, já a Seatle dos anos 90 era basicamente fria, gelada,sem uma identidade visual elaborada, e tudo o que a moda de lá podia oferecer eram os inacreditáveis camisões de flanela que fizeram sucesso até no verão do Rio de Janeiro (!).
Sem estrutura adequada para sustentar a fama repentina e os milhões de dólares adquiridos subitamente, as bandas começaram a se esfacelar, a criatividade a minguar e as músicas parecia se diluir numa temática fria, deprimida e auto destrutiva que repercutia mais ainda quando se associava à vida pessoal daqueles garotos de repente transformados em ídolos.
Para cada movimento, sempre havera um Martír, para cada Martír, um motivo!
Em 1994 Cobain saiu das paginas musicais para a pagina policial após cometer suicídio com um tiro na cabeça, aparentemente sozinho, entregue aos próprios fantasmas, auto indulgente, como o fim do movimento que representava.
O Rock alternativo jamais foi o mesmo, sua temática fora definitivamente absorvida pela indústria, seus códigos assimilados e sua estética devidamente esmiuçada e dissecada em seguidas coleções de outono-inverno pelo do mundo.
Uma década após , através do olhar preciso e analítico daquele documentário, percebo que ainda que como mero espectadores, vivenciamos a formação de um importante capítulo da história do Rock, de um capítulo conflituoso e inevitável, tal qual o fim da adolescencia, o da Inocencia perdida!

-Na barra de Vídeo ao lado relacionei partes do documentário Seven Ages of Rock e em homenagem aos alternativos de ontem e de hoje a radio Toca Plays está com sua seleção totalmente College Rock-
Hope u Enjoy

As Piores capas de 2007


Ando me repetindo nos últimos posts na minha implicância com as listas, pelo fato delas não acrescentarem nada, por serem pessoais ou editoriais demais, enfim, por uma série de razões que, colocadas lado a lado, não constituem exatamente uma ojeriza, talvez uma má vontade!
Estava dando uma olhada nos blogs e páginas de revistas gringas atrás da raspa do tacho de 2007, do que seria tendência para o ano que começa semana que vem ou simplesmente pra descobrir quem passou batido - e muita coisa passou batida - pois desde já reconheço que o ano de 2007 foi bastante especial para a música, independente ou não.
Me deparei então com duas listas, uma da Pitchfork  e outra da Idolator ,ambas sobre o mesmo tema:

                   As PIORES capas de álbuns de 2007.


As capas de discos, originalmente deveriam somente servir de moldura para a identificação do artista, estavam inseridas na idéia de álbum, cujo conjunto era composto por canções, parte gráfica, letras , ficha técnica e agradecimentos.
Com a evolução do mercado e já alçado a condição de objeto cultural, as capas passaram a ter tanta, em alguns casos até mais, importância do que a música que compunha o conjunto, sendo , em um dado momento, o principal referencial mercadológico de uma banda , de um selo ou mesmo de um estilo.
Andy Warhol, nos anos 60, lançou o conceito de Pop Art, e , paralelamente a ele , a capa do primeiro álbum da banda que apadrinhou, o Velvet Underground , polêmica por esconder sob a banana que a ilustrava a foto de um pênis, tendo sido censurada e posteriormente lançada sem tal menção.
O impacto maior desta capa foi a assimilação imediata das gravadoras, em plena contra cultura - não bastava ter uma capa bonita, ela tinha que ser polêmica-
A disputa pela melhor capa se acentuou com o duelo Beatles x Stones, cujas capas passaram a ser esquadrinhadas minuciosamente, servindo até de combustível da paranóia política persecutória que marcou aqueles anos.
Nos anos 70, com o advento do Rock progressivo, as capas passaram a exprimir um conceito, uma introdução ou síntese da obra, The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, talvez a banda das capas mais criativas, é considerado um marco, um ícone até hoje.
Na sequencia, o Punk mudou as regras, mandou os conceitos de mercado as favas: três acordes, letras sem firulas e capas diretas, como a de Nevermind The Bollocks, dos Sex Pistols. Vieram então os anos 80 e com eles as super produções, as capas mega elaboradas, em contrapartida, as capas das bandas com influencia Pós Punk ,os New Romantics e mesmo as bandas de Hardcore ,recuperavam a idéia de conceito, descartada pelos punks , passando a contextualizar a musica através da imagem.
Nesse interim e correndo paralelo a toda essa movimentação, surgiram os elementos que identificavam as bandas de Heavy Metal (Cruzes, cemitérios, monstros como o Eddie , do Iron Maiden) e as imagens icônicas do Reggae e da Black Music cada um agregando valor e criando uma referencia visual para um estilo musical.
Os últimos suspiros de arte conceitual em capas de álbuns foram nos anos 90, quando o vinil já havia sido substituído pelo CD, e as capas não necessariamente ostentavam a elaboração de outrora, bastava uma boa idéia como sinalizava Nevermind, do Nirvana.
A Digitalização da música, neste século, tornou a capa um artefato secundário, item que importa mais a saudosistas da era do vinil do que propriamente para a massa de conssumidores de Ipods e mp3 players.
Mas para estes saudosistas, pessoas a quem manusear uma bela capa era quase um contato com uma obra de arte, uma boa capa ainda reflete muito do som da banda, ou da intenção do selo e até mesmo da qualidade da música que compõe o pacote.
Por isto essas listas me chamaram tanto a atenção, menos pelos artistas citados, mais como evidencias da extinção de uma arte, cujos mecanismos permanecem, mas os elementos se dissipam.

Vídeo: Album Cover Galore - A Batalha das Capas -

Ceremony By Radiohead

A banda mais criativa dos 90's tirando um cover da banda mais influente dos 80's em pleno final de 2007, isso é o que chamo de atemporalidade !

As Listas....



Já começaram a pipocar aqui e ali as famigeradas listas de Fim de ano, em todas elas algumas figurinhas carimbadas irão bater ponto, como por exemplo, o evento cinematográfico do ano: Tropa de Elite.
Em outras, para se diferenciar do previsível, surgirá alguma banda ou filme que você não ouviu falar nem no blog do seu amigo mais antenado.

Listas, como já citei em outro tópico, são invenção Britânica para encher lingüiça nos tablóides, que se alastraram feito praga mundo afora , por sua capacidade de sintetizar uma idéia comum ou de criar polêmica.

O fato é que a polêmica causada pelas listas é exatamente o que mantém o interesse nelas, a divergência de opiniões e um foco de vista pessoal ou editorial é o combustível que alimenta essa pequena (ou grande, dependendo do objeto a ser
listado) manifestação de maniqueísmo midiático.

A Lista dos 10 discos do ano, dos 10 Filmes, dos 10 escândalos, toda publicação que se preze, da mais renomada a mais medíocre fará sua seleçãozinha de acordo com os seus critérios de bom e ruim ,e esses, diga-se de passagem , são tão subjetivos quanto o conceito de bom gosto, varia de acordo com o interesse de cada grupo.

A década de 90 assistiu uma dissociação nunca antes vista em termos musicais no tocante a estilos, enquanto nas décadas anteriores os limites de um estilo eram bem definidos,o que era Country era Country, o que era Hard Rock era Hard Rock e o que era eletrônica era eletrônica, a partir daquela década passou-se a agregar denominações distintas a um mesmo estilo baseando-se, mais uma vez, em subjetivismos e limites tão tênues quanto a quantidade de BPM (Batidas por Minuto) de uma música.

Surgiram termos como Low Fi, Nu Metal, Ragga, Ambient, Techno entre outros e estes se subdividiram em uma centena e meia de subcategorias que tornaram impraticável listar um desses subgêneros sem o risco de invadir a seara de uma sub sub categoria antagônica.

Por esse motivo as listas hoje parecem grandes balaios de gatos , sem um objetivo claro, exceto listar o que se convém, o que participa da linha editorial de quem publica, e , nesses casos, esvaziada a polêmica – o combustível das listas- pela empatia do público, perde-se a essência do recurso.
Tentei quebrar a cabeça e elaborar alguma listinha, por menos representativa que fosse, baseada na conceituação inicial, mas o máximo que consegui foi relacionar um outro fato desconexo que me chamou atenção durante o ano, de qualquer forma, segue abaixo:


Evento Pirotécnico do ano:

O Apagâo aéreo

Personalidade do Ano

Ângelo de Jesus, lavrador de Pindobaçu que tentou invadir o senado pra falar com Lula

Disco do ano
Ate agora, In rainbows- Radiohead, menos pelas músicas, mais pela inovação.

Filme do Ano

Control

Celebridade do Ano
Amy Winehouse

Melhor apresentação
Britney Spears, no VMA (pelo menos, a mais engraçada)


Melhor Retorno de banda
My Bloody Valentine

Programa de TV

Por Toda minha vida, sobre Renato Russo (bem feitinho)

Tropa de Elite do Ano (Sim ,isso já é uma categoria)

O Recolhimento da biografia de Roberto Carlos

Show do Ano (No Brasil)
New Model Army (Tô devendo um post sobre eles)

Washington acha engraçado teu Inglês, Please Come Back!



Existe um séquito de seguidores do Fellini, banda alternativa brasileira do anos 80. Um grande número de ouvintes que ,como eu, descobriu a sonoridade cool da banda ainda umas 2 décadas atrás e agregou à trilha sonora de suas vidas os clássicos o Adeus de Fellini , Fellini só vive 2 vezes, Tres lugares diferentes, Amor Louco , Amanhã é tarde e o póstumo Posta Restante.
O que faria do Fellini uma banda tão influente , mesmo nunca tendo participado de grandes festivais, nunca ter tido clipe no fantástico e nem mesmo assinado com uma grande gravadora não chega a ser um mistério indecifrável.
Quando surgiram, a cena paulistana emulava ecos do Punk e do Pós Punk Inglês, era a década de 80, e , apesar da disseminação das gravadoras independentes mundo afora (pelo menos no mundo competitivo) por aqui a estrutura dessas gravadoras era precária e restrita.
Haviam as Mercenárias, o Cabine C , Akira S e as garotas que erraram, o Vzyadoq Moe, e toda uma leva de bandas alternativas, independentes, que recebiam criticas elogiosas da BIZZ às suas quase obras primas.
Boa parte dessas bandas era formada por jornalistas da revista.
O que reduzia sensivelmente a credibilidade das críticas, ainda que algumas dessas bandas fossem realmente inovadoras , mas a grande maioria simplesmente repetia clichês do rock que se fazia la fora e que não chegava aqui por fatores óbvios, como os comerciais, por exemplo.
O Fellini também era formado por jornalistas, que eventualmente contribuiram com a Bizz, mas tinham um diferencial, um algo mais que nenhuma dessas supra citadas bandas tinha pensado, uma Brasilidade estudada.
O Primeiro disco, ironicamente intitulado O Adeus de Fellini, traz o que talvez possa ser considerado um semi hit, ou a musica mais conhecida banda, Rock Europeu :Você nem imagina o que você não conheceu, agora é tarde, é tarde e meu saco já encheu!
O Fellini associou elementos de MPB e samba a clichês do Rock assimilados por seus contemporâneos, e , apesar da precariedade das gravações se infiltrou no mainstream de forma discreta, não a ponto de ser reconhecido, mas a ponto de ser citado como influencia de bandas revolucionarias com Chico Science & Nação Zumbi.
O Pulo do gato deu-se em Amor Louco, disco gravado em 16 canais, contra os 4 canais dos álbuns anteriores, onde a banda assumia de vez sua brasilidade em um disco clássico e inequívoco.
Chico Buarque Song e Love ‘Till the Morning tornaram-se clássicos instantâneos.
Apos longo hiato a banda lançou o tardio Amanha e tarde,e depois, por MP3, através da comunidade mantida no orkut, uma coletânea de sobras de estúdio chamada Posta Restante.
Os Projetos dos integrantes da banda servem ainda hoje para acalentar noites frias , minimizar a falta que faz o fato da banda mais interessante do pais jamais ter tido o devido reconhecimento. Não que isso faça alguma diferença, afinal, o Fellini é uma banda de musica originalmente popular, filtrada pelo prisma crítico do bom gosto e misturada aos mais sutis elementos da vanguarda que se foi.
Um biscoito fino para poucos, como eu ou você, que chegou até aqui e que guarda uma certeza!
A Quietude é quase um Sonho!

IRA Paradoxal !



Uma das bandas mais criativas do Rock nacional nascido nos anos 80 foi sem dúvida o IRA.
Legítima representante da primeira leva do rock paulistano a despontar no período, ao lado de Titãs e Ultraje a Rigor, o Ira obteve reconhecimento de público e crítica em seu segundo disco, Vivendo e não aprendendo, de 1986. E aí se revelou a faceta mais interessante da banda.
Ao ter a música flores em você vinculada na abertura da novela Global o outro, o Ira rapidamente alcançou o topo das paradas, já ocupadas por suas bandas irmãs ,Titãs e Ultraje a Rigor, cujos integrantes eventualmente se revezavam.
Esse sucesso, ao contrário do esperado, fez a banda levantar a bandeira da integridade, ao se recusar a tocar playback no chacrinha e não participar do primeiro Hollywood Rock alegando discriminação com as bandas brazucas.
Logo depois a banda lançou o genial e incompreendido Psicoacústica, disco que os mais antigos lembram mais por vir com um óculos 3D como brinde do que por sua inovação sonora.
Naquela época, enquanto as outras bandas nacionais copiavam ipsi literi o som que andava fazendo sucesso na Inglaterra, o Ira apontava para uma outra direção.
Já havia o envolvimento do vocalista Nasi com o Funk e o Rap, através de Tahide e Dj Hum, não essa baixaria derivativa do Miami Bass de hoje em dia, mas das raízes do mesmo.
O disco, experimental demais para o gosto popular, não obteve sucesso comercial, e iniciou a primeira derrocada da banda.
Psicoacústica é um álbum fantástico, mistura de elementos de Rap, Reggae e Rock Mod a lá The Jam, que aliás, sempre foi uma das principais influencias da banda,e trazia pelo menos uma boa polêmica, a autoria da letra de Receita para se fazer um herói, atribuída a um colega de quartel de Edgar Scandurra, guitarrista genial e principal compositor da banda.
Letras polêmicas nunca foram novidade para a banda, pobre paulista, do álbum anterior , seria considerada o maior hino racista já composto no país, ainda que a banda se esforce para explicar até hoje que não se trata de uma música discriminatória.
Após o fracasso de vendas de psicoacústica, o IRA mergulhou em uma sucessão de álbuns irregulares, do fraco Os meninos da rua paulo, ao incompreensível você não precisa entender, onde Scandurra já demonstrava a verve eletrônica que desenvolveria nos próximos anos em álbuns solo.
Passaram a década de 90 mergulhados num semi anonimato, onde vez por outra eram citados , ora por causa de pobre paulista, ora por , assim como o capital inicial, terem sido uma banda promissora que simplesmente não disse ao que veio.
O primeiro fôlego para uma recuperação veio em 1999, quando lançaram o álbum de covers Isto é amor, e a versão da Música teorema, da contemporânea Legião Urbana, obteve relativa repercussão, que rendeu um convite da MTV para gravar o bom e bem sucedido Ao Vivo MTV apresenta IRA, seu primeiro disco ao vivo e que provava que eles estava em plena forma e prontos novamente a ocupar o posto que jamais deveriam ter desocupado, por trás do estigma de banda honesta e que não se vendia a essa coisa subjetiva chamada sistema .

O formato acústico, amplamente disseminado no Brasil a partir da segunda metade da década de 90, tirou muitas bandas do fundo do poço e reavivou muitas carreiras em declínio.
A Volta por cima do IRA passaria necessariamente por esse recurso. Assim como o Capital Incial, o Acústico MTV IRA alcançou vendas altas e a banda saiu em turnê angariando novos fans e dando a oportunidade aqueles que jamais os tinham visto em ação ter contato com uma banda madura e coesa.
Infelizmente esse retorno triunfal foi o início do fim.
Em 2007 o IRA lança Invisível DJ , álbum com sonoridade mais próxima dos primeiros discos da banda, onde novamente são bem recebidos pela crítica e ,alguns shows depois , explode na mídia uma polêmica impensável em se tratando da banda mais honesta do rock brazuca.

Primeiro surgiram os boatos de que Nasi havia faltado a alguns shows, logo, uma corrente de admiradores da banda , em um primeiro momento, temeram pelo pior, uma vez que o vocalista já havia passado por clínicas de reabilitação e sua relação com abuso de álcool e drogas era conhecida .
No entanto a situação era mais delicada e não menos complexa, envolvia disputa familiar, suspeita de desvio de dinheiro ,agressões e uma tentativa de fratricídio.

Nasi haveria registrado um boletim de ocorrência onde alegava ter sido ameaçado com uma faca pelo irmão e empresário da banda , Airton Valadão Júnior, logo após partiu para o ataque através da mídia, onde afirmava categoricamente que havia sido prejudicado financeiramente pelo irmão e pelos demais integrantes da banda, em seguida foi divulgado um telefonema do mesmo Nasi ao seu irmão contendo ameças de morte e em seguida, o pai do vocalista pediu a interdição jurídica do mesmo alegando que nasi já não poderia responder por si, vitimado por anos de abuso de substancias entorpecentes, que o teriam deixado incapaz .
O próximo passo foi uma entrevista ao fantástico, onde Nasi explicava a situação através de seu ponto de vista e alegava que tudo se tratava de uma imensa conspiração.
Naturalmente, a essa altura, a banda já havia deixado de contar com seu vocalista original e anunciava que seguiriam , agora com o nome de Trio e com Scandurra nos vocais.

O Grande paradoxo em toda a situação é que o fim da banda depõe contra tudo o que era pregado pela mesma, a tal honestidade e a integridade alegadas seriam substituídas por trocas de agressões publicas motivadas por dinheiro, e não pela falta do mesmo, mas pela visível irritação por não se ter certeza se o que se recebe é o justo, o correto.

Ninguém pode emitir juízo de valor a esse respeito, nem julgar meios que depõe contra os fins, o fato é que uma banda é uma empresa, e como tal tem ônus e bônus, os lucros obtidos em turnê, através de peças publicitárias e todos os canais que gerem lucros para uma banda tem que ser devidamente contabilizados e a parte que cabe a cada um, do exercito de colaboradores que compõem aquela instituição, aos integrantes da mesma, devem estar previstos em contrato.

O que estamos assistindo não é o fim de uma banda, mas infelizmente, a falência de uma empresa.
E o que mais me surpreende, é que essa falência vem da principal propaganda desta empresa: sua suposta integridade.

E Quem Precisa de Listas???


Recentemente a revista Norte-Americana Blender publicou a lista dos 100 melhores albuns Indies da História (Na opinião deles).
Na minha modesta opinião,passou longe!
Os 100 melhores albuns Indies da história não estão bem representados,primeiramente por que por se tratar de uma publicação norte americana, a revista puxa a brasa para sua sardinha, incluindo aqui e acolá uma obviedade.
Em segundo lugar, quais os critérios utilizados?
Com base em que o espertão que redigiu a lista afirma que o genial Unknow Pleasures é inferior a sua cópia Funeral, do Arcade Fire ? (Um Sub Joy Division, bacaninha, mas a léguas de distancia!).
Aonde que a espontaneidade genial e agressiva de Jello Biafra em Fresh Fruit For rooting Vegetables é pior do que Damaged, do Black Flag?
Listas sao extremamente subjetivas e pessoais, originalmente uma tradição britânica para encher linguiça em seus tablóides, para polemizar e gerar comentários irritadiços.
Não se deve leva- las a sério, mas deve-se levar em consideração um fato,
Ver seus discos preferidos serem desbancados numa listinha por uma bandeca que você nunca ouviu e nem vai querer ouvir falar induz a uma idéia,
alguém se habilita a fazer a lista das listas mais ridículas já publicadas?
(Em negrito eu destaco os albuns REALMENTE importantes dessa Lista, pelo menos para mim!)


100 The Shaggs - Philosophy Of The World
99 Dream Syndicate - The Days Of Wine And Roses
98 Palace Music - Viva Last Blues
97 The Mekons - Rock 'N' Roll
96 TV On The Radio - Return To Cookie Mountain
95 The Dismemberment Plan - Emergency & I
94 Half Japanese - Greatest Hits
93 Big Black - Atomizer
92 Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables
91 The Chills - Kaleidoscope World
90 Animal Collective - Strawberry Jam
89 Art Brut - Bang Bang Rock & Roll
88 Daniel Johnston - Yip/Jump Music
87 Wolf Parade - Apologies To The Queen Mary
86 Flipper - Album - Generic Flipper
85 The Clean - Anthology
84 Beat Happening - You Turn Me On
83 The Misfits - Walk Among Us
82 The Embarrassment - Heyday 1979-83
81 The Vaselines - The Way Of The Vaselines
80 Feist - The Reminder
79 Clap Your Hands Say Yeah - Clap Your Hands Say Yeah
78 The 13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators
77 Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not
76 Le Tigre - Le Tigre
75 Galaxie 500 - Today
74 The Fall - 50,000 Fall Fans Can't Be Wrong
73 Meat Puppets - Up On The Sun
72 The Mountain Goats - We Shall All Be Healed
71 Stereolab - Refried Ectoplasm
70 Mudhoney - Superfruzz Bigmuff Plus Early Singles
69 Nick Drake - Pink Moon
68 Descendents - Milo Goes To College
67 Hüsker Dü - New Day Rising
66 Young Marble Giants - Colossal Youth
65 Various Artists - No New York
64 Cat Power - The Greatest
63 Nirvana - Bleach
62 The Feelies - Crazy Rhythms
61 LCD Soundsystem - LCD Soundsystem
60 Sufjan Stevens - Illinois
59 Nine Inch Nails - Pretty Hate Machine
58 Built To Spill - There's Nothing Wrong With Love
57 Bikini Kill - Pussy Whipped
56 Archers Of Loaf - Icky Mettle
55 Bad Brains - Bad Brains
54 Unrest - Imperial F.F.R.R.
53 Smashing Pumpkins - Gish
52 Bright Eyes - Lifted Or The Story Is In The Soil, Keep Your Ear To The Ground
51 Interpol - Turn On The Bright Lights
50 Rilo Kiley - More Adventurous
49 Spoon - Kill The Moonlight
48 Mission Of Burma - Vs.
47 Green Day - Kerplunk
46 Franz Ferdinand - Franz Ferdinand
45 Fugazi - Repeater
44 Various Artists - Wanna Buy A Bridge?
43 Black Flag - Damaged
42 Brian Eno - Another Green World
41 Modest Mouse - The Lonesome Crowded West
40 New Order - Power Corruption & Lies
39 Pavement - Crooked Rain, Crooked Rain

38 The Strokes - Is This It
37 Yeah Yeah Yeahs - Fever To Tell
36 Elliott Smith - Either/Or
35 Liz Phair - Exile In Guyville
34 Superchunk - On The Mouth
33 The Shins - Oh, Inverted World
32 Neutral Milk Hotel - In The Aeroplane Over The Sea
31 Guided By Voices - Bee Thousand
30 Wilco - Yankee Hotel Foxtrot
29 Violent Femmes - Violent Femmes
28 The Magnetic Fields - 69 Love Songs
27 M.I.A. - Arular
26 Belle And Sebastian - If You're Feeling Sinister
25 Sebadoh - III
24 The New Pornographers - Mass Romantic
23 Yo La Tengo - Painful
22 Meat Puppets - Meat Puppets II
21 The Modern Lovers - The Modern Lovers
20 The Hold Steady - Separation Sunday
19 Sleater-Kinney - Dig Me Out
18 Joy Division - Unknown Pleasures
17 The White Stripes - White Blood Cells
16 Slint - Spiderland
15 X - Wild Gift
14 De La Soul - 3 Feet High And Rising
13 Hüsker Dü - Zen Arcade
12 Dinosaur Jr - You're Living All Over Me
11 Minutemen - Double Nickels On The Dime
10 The Smiths - The Smiths
09 Big Star - Third/Sister Lovers

08 My Bloody Valentine - Loveless
07 The Velvet Underground - The Velvet Underground
06 Arcade Fire - Funeral
05 Pixies - Surfer Rosa
04 R.E.M. - Murmur

03 The Replacements - Let It Be
02 Sonic Youth - Daydream Nation

01 Pavement - Slanted And Enchanted

Ian Curtis andou Visitando a Toca!

UNKLE- Burn My Shadow (2007)

Da série preferidos da casa:

Ave Sangria


A primeira vez que ouvi falar da Ave Sangria foi em uma matéria de extinta (Deus sabe até quando) revista Bizz, sobre Psicodelia Brasileira. Ao lado dos clássicos discos do Ronnie Von, figurava uma banda com um título inusitadamente curioso e procedente do Nordeste, de Recife, exatamente.
Na minha adolescência tive acesso aos primeiros e melhores discos de artistas Nordestinos, como Fagner , Alceu Valença, Zé Ramalho e mesmo Elba Ramalho.
O que estes artistas se tornaram depois, por força da indústria, pela necessidade de um retorno financeiro ou simplesmente por descaso com sua proposta musical inicial é assunto para um outro Post, o importante é que aqueles trabalhos demonstravam que havia sim uma cena musical e artística muito forte e com características próprias naquela época na região.
Eram os anos 70, e após o advento do Tropicalismo, o que estava na moda era alardear a nossa Brasilidade. Com o país fechado pela ditadura , nossos olhos se voltavam para nós mesmos. Mas o Tropicalismo tinha um que de movimento estético sulista, impregnado por uma visão colonialista do Sul/ Sudeste sobre um Brasil hipotético, possível, porém improvável.
Era no Nordeste que idéia musical do movimento tropicalista se manifestava da forma mais concisa, sem o aceno da mídia ,preponderante na época.
Era neste mesmo Nordeste que uma segunda geração de artistas assimilava as influências do rock vindo de fora, ou pelo menos do que chegava por aqui, e acrescentava a ela elementos regionais, criando algo novo, espontâneo, como só se veria novamente nos anos 90 através do Mangue Beat.
Lá fora Bowie e o Glitter Rock predominavam, no Brasil, o impacto dos Secos & Molhados, se apropriando da estética Glitter, ainda demoraria a baixar.
Em Recife, uma banda inicialmente batizada de Tamarineira Village, em homenagem ao bairro onde moravam, aplicava essa mistura , de estética internacional e musicalidade regional acrescidas de Psicodelia, eram tachados de Rolling Stones do Nordeste.
Àquela época , o preconceito com região era ainda maior do que hoje. O Brasil se resumia na Rede Globo e a imagem estereotipada e idiotizada do Nordestino era , para a grande massa de espectadores, uma verdade inexequivel.
Talvez por isso, ou em protesto a essa realidade que ainda hoje é absurda, ao chegar no estúdio de gravação para registrar seu primeiro e infelizmente último trabalho, os integrantes da banda tenham se fantasiado de lampião, com peixeiras na cintura.
Mas a verdade é que , dentro do contexto da época, NÃO podia haver alguém no Nordeste produzindo Rock, isso era coisa de Paulista, no máximo, de carioca.
As gravações do album homônimo foram tumultuadas , e isso resultou em uma sonoridade mais acústica do que a banda pretendia,contribuindo para desgastar ainda mais o relacionamento entre os integrantes.
O Album foi lançado sobre protesto da banda, pois à revelia, a arte da capa fora alterada por um arremedo da arte inicial, uma estratégia da gravadora para não pagar os direitos autorais ao ilustrador Pernambucano Laílson de Holanda Cavalcanti.
Em 1975 a banda se reuniu para um concerto de despedida, deste concerto foi extraído o Audio do semi oficial (ou Quase Pirata) Perfumes & Baratchos.
É lá que se consegue, muito mais do que no disco homônimo, sentir a força da banda.
É lá também que se vislumbra o que poderia ter sido.
O Ave Sangria foi uma banda injustiçada, por preconceitos, eufemismos e incompreensão tanto da mídia quanto do público.
30 anos é muito tempo para que se faça justiça, os integrantes da banda são hoje respeitáveis senhores, que ainda trabalham de alguma forma com produção musical, a exceção do baterista, que cometeu suicídio nos anos 80
Mas nunca será tarde para se encantar com o que o Nordeste produziu de mais transgressor três décadas atrás, ainda que paire certa melancolia e uma triste certeza: Enquanto a criatividade for escrava da mídia ela estará sujeita a distorções como a que condenou a Ave Sangria ao limbo das curiosidades.

Abaixo transcrevo entrevista com Almir Oliveira, um dos fundadores da banda, publicada originalmente na revista Coquetel Molotov # 1

Ave Sangria- Uma História

A trancrição de um registro sobre a banda mais injustiçada da história da música brasileira:





Almir de Oliveira fundou o Ave Sangria, grupo pernambucano da década de 70 que foi importante pela sua irreverência e musicalidade à frente de seu tempo. Inicialmente, ele foi formado por Almir, Marco Polo, Ivinho, Agricinho e Rafles. Naquela época de contracultura, o Drugstore Beco do Barato, bar localizado no centro do Recife, antigo TPN (Teatro Popular do Nordeste), era o cenário perfeito para uma juventude que se descobria e contestava o poder político e a moral vigente. Foram batizados de Udigrudi.
Mesmo depois do fim do Ave Sangria, e lá se vão 30 anos, Almir nunca deixou a música de lado. Agora, em seu novo projeto, ele tem a companhia de sua esposa Niedja nos vocais, do neto Caio César, percussionista, além de outros músicos. As composições seguem a linha do rock ‘n’ roll, vício que ele não abandona. Mas Almir também flerta com ritmos como bolero, chorinho e maracatu (mistura, aliás, presente já em sua antiga banda). A irreverência das letras e a ousadia da juventude permanecem. Não é à toa que seu novo trabalho, intitulado “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”, conta a história de um travesti que escandalizava a cidade nas décadas de 50/60.

Com a ajuda da sua produtora Bianca Simpson, Almir vem se apresentando no Recife e sente-se mais livre para compor e fazer planos de um novo CD e até um DVD. O que eles precisam agora é de apoio das instituições públicas e privadas para concretizá-los. A entrevista que você começa a ler é um retrato fiel e sincero de um músico que resistiu ao tempo, mesmo que muitas vezes tenha sido impedido de dizer tudo o que sentia ou pensava.

"Na capa original, a ave não estava estática, ela voava. Tinha uma caveira de boi, uma coisa nordestina. Porque mesmo sendo rock, tínhamos uma musicalidade do Nordeste"

Como surgiu a vontade formar a banda?
Eu comecei a tocar com 16 anos em bailes e mais ou menos aos 18, comecei a compor. O grupo com o qual eu tocava nos bailes, Os Astecas, não queria fazer algo autoral. Então, um dia, falando com um dos músicos dos Astecas, Rafles, expus a ele a minha vontade de fazer um grupo que tocasse músicas próprias. Aí ele falou de um amigo que morava no bairro de Casa Amarela que também tinha essa vontade. Um dia, ele me levou na casa desse amigo, que era Marco Polo. No mesmo dia, eu conversei com Marco, que logo se interessou. Convidei-o para assistir ao ensaio dos Astecas. Ele foi e gostou. Na metade de 69, eu passei a tocar com Os Selvagens, que também era lá da Vila dos Comerciários (subúrbio do Recife). Foi quando eu conheci Ivinho e Agricinho.

Onde vocês ensaiavam?
O primeiro ensaio foi lá em casa e depois na de Ivinho. Quando a gente foi gravar o disco, ensaiamos na casa de Mário Teodósio (amigo do grupo), no Poço da Panela. A família dele foi passar uma veraneada lá em Pau Amarelo. Nesse tempo não era Porto de Galinhas não, era Pau Amarelo e Candeias (risos). Como a casa ficou vazia e na parte de trás tinha uma garagem, ensaiamos lá mesmo. Depois, o irmão de Paulo Rafael (outro amigo), que trabalhava na Compesa, arranjou para a gente tocar na Associação da Compesa. Era assim, na base da amizade. Os amigos nos emprestavam até instrumentos.

E como eram os shows?
A gente bancava tudo, mas às vezes dividíamos os custos com uns amigos que nos ajudavam na produção. Fazíamos de tudo. Pregávamos cartazes na rua, distribuíamos panfletos... Num show do Perfumes y Baratchos, eu acordei cedo, distribuí panfletos da cabeça do Pina até a pracinha de Boa Viagem, aproveitei e peguei um bronze (risos). De tarde, carreguei e montei os instrumentos, passei o som para a Polícia Federal e toquei à noite. Tínhamos por obrigação tocar todo o show para a Polícia Federal, para que não tivesse nada de errado nas letras. Eles ainda ficavam na hora do show para ver como ia ser.

Teve algum show interditado?
Não. Mas de vez em quando alguém era “convidado” a depor. Flaviola foi chamado para depor na Polícia Federal. Quando a gente ia liberar letra de música, por exemplo, às vezes tinha um bate-bocazinho. Tinha uma música minha chamada “Sundae” que foi proibida. Era uma coisa meio psicodélica e eles não entendiam o que significava. Nessa confusão toda eu dizia: “Rapaz, vocês que são os especialistas em análise de letras não estão entendendo, imagina o povo que está aí passando fome”. Aí ele disse pra mim: “Se repetir isso, fica”. Você não podia dizer que nada estava ruim, só que estava bom, só que a gente não dizia isso. A gente falava do silêncio costurado na boca do guarda.

Quem eram as pessoas que freqüentavam os shows?
Tinha gente do Morro da Conceição à Boa Viagem. Pessoas de pouca instrução ou de grande instrução. Muitos artistas freqüentavam os nossos shows como Paulo Bruscky, Lula Côrtes, Tiago Amorim, Ângela Botelho, Mário Teodósio, e todo o pessoal que gostava de arte e que não estava satisfeito com aquela história de repressão. A nossa primeira apresentação foi num festival em Fazenda Nova já como Tamarineira Village. As pessoas dizem até hoje que a gente não tinha o nome Tamarineira Village, mas já tínhamos.

Naquela época, como a mídia via o trabalho de vocês? Marco Polo já era jornalista? Isso facilitava?
Jornalistas da época, como Celso Marconi, Walter Coutinho, esse pessoal sempre abriu espaço pra gente nos jornais. Marco já era jornalista. Ele começou no Diário da Noite. Em 69, ele foi para o Rio de Janeiro. Quando voltou, o pessoal do jornal já o conhecia e isso facilitava. Duas coisas foram importantes naquela época para a nossa divulgação: a TV Jornal do Commercio e a Rozenblit. Eu toquei em muitos programas de auditório. O Nordeste inteiro via aqueles programas. E a Rozenblit era um estúdio e a fábrica de discos que distribuía para todo o Brasil. Quando a TV e a Rozenblit acabaram, perdemos dois aliados importantes.

Como surgiu o convite para gravar um disco pela Continental?
Tinha uma outra gravadora que procurou Marco pra a gente gravar um disco, não me lembro o nome... Mas nós achamos que ainda não estava em tempo. Éramos ainda Tamarineira Village. Aí o Trio Irakitan passou por aqui e nos conheceu, porque a gente estava sendo comentado no sul do país. Então, eles nos indicaram pra Continental, já que a gravadora estava atrás de um grupo de rock do Nordeste.

E por que a mudança do nome de Tamarineira Village para Ave Sangria?
Tinha pessoas que falavam apenas Village ou não falavam o nome direito. E quando a gente fez o contrato com a Continental, eles acharam que seria melhor trocar por um nome que fosse mais fácil. Eu não queria, mas foi decidido. O nome foi dado por Marco Polo.

Mas o nome era bom...
Eu prefiro Tamarineira Village. Quem deu esse nome foi Rafles, porque ele representa a nossa própria realidade. A maioria dos músicos saiu da Vila dos Comerciários, no bairro da Tamarineira. Tamarineira era o nome do hospício e do bairro e, portanto, tinha ligação com a loucura que a nossa música representava na época. Eu até hoje acho esse nome mais interessante, até porque também dava a idéia de uma comunidade musical, que era o que a gente queria fazer. Queríamos um grupo mais democrático do que foi o Ave Sangria. Porque o Ave Sangria terminou centrado em torno de Marco, apesar de ele ser o músico de mais prestígio. Agora, eu não acredito que isso tenha acontecido pelo fato dele ser jornalista. Outra coisa: as músicas das gravações não foram bem divididas, o grupo era para ter sido mais democrático e não foi.

Como foi a gravação?
Foi uma loucura (risos) porque deram pra gente uma semana para gravar e nunca tínhamos entrado num estúdio. Eu fiquei preocupado, porque pedi a um representante da Continental daqui, um maestro e tempo suficiente pra gente gravar um disco, pelo menos um mês. Era pouco, mas pelo menos a gente tava ensaiando. Mas quando a gente chegou ao Rio de Janeiro, não tinha maestro e foi só uma semana pra gravar. O estúdio só tinha bateria, não tinha instrumento nenhum, e tivemos que correr contra o tempo. Experiências que a gente queria fazer, como, por exemplo, colocar um caboclinho em “Geórgia, a Carniceira”, não foram possíveis. Não se podia errar, porque não dava tempo. Teve até uma música em que eu errei o baixo, mas ficou por isso mesmo. Eu ainda tentei conversar com o produtor para transformar as passagens de avião e hospedagem de hotel em hora de estúdio, mas não teve jeito. A gravadora, na verdade, não tinha muito interesse. Todos os artistas daquela época, no primeiro disco, não ganhavam muita atenção. E do meio mais underground quem estourou foi o Secos & Molhados.

Após esse disco, o que aconteceu com a banda?
Com um mês e meio de gravado, o disco estava em décimo lugar nas paradas da época por causa de “Seu Valdir”. Mas aí, houve a proibição do disco por conta dessa música. O princípio moral e dos bons costumes entendeu que a gente era um atentado. A música dizia: “Seu Valdir, o senhor magoou meu coração”, era um homem cantando para outro homem. Era uma apologia ao homossexualismo...

E Seu Valdir existiu mesmo?
Aquilo foi uma música que Marco fez para Marília Pêra cantar em uma peça, na época em que ele estava morando no Rio. Então, quando ele chegou por aqui, em 71, mostrou a música pra gente. Nós adoramos. Chico Buarque já tinha feito músicas semelhantes, mas como se ele fosse uma mulher. Mas, um homem falando pra outro homem era a primeira vez. Foi um escândalo... Tiraram os discos das lojas, das rádios... Um tempo depois, a Continental relançou o disco sem “Seu Valdir”. Mas aí não teve graça. Foram vendidos, em um mês e meio, de 15 a 20 mil discos. Para a época foi ótimo. Aliás, ainda hoje é ótimo. Hoje ele virou uma peça de colecionador.

Eu li que Charles Gavin, dos Titãs, queria relançar o disco do Ave Sangria dentro da Série ‘Dois Momentos’ da Continental. Como ficou isso?
Na época em que Tom Capone era vivo, conversei com ele no Abril Pro Rock. Eu levei um clipping excelente do Ave Sangria. Eu disse ao Capone que se relançassem o disco, cinco mil eram vendidos apenas por aqui. Ele me deu o telefone dele, passei um mês ligando pro Rio, nunca tive uma resposta. E o projeto do menino dos Titãs era só para quem tinha dois discos. Mas poderia ter lançado com outra banda, mas até hoje não rolou. A master agora pertence à Warner.

Em uma foto de divulgação do Ave Sangria, vocês aparecem junto a uma menina semi-nua deitada. Quem era ela? E, afinal, quem fez a capa do disco?
Até hoje a gente mantém um segredo (risos). Ela era uma menina da sociedade, hoje já é uma senhora. Talvez o marido dela não goste. Mas ela era menor de idade na época, por isso que ficou de costas. Ninguém de maior topou, aí ela disse que fazia. Mas o sentido daquela foto era chocar mesmo, porque as coisas mais simples naquela época se tornavam um estardalhaço. Era uma coisa de ser rebelde, subversivo. Laílson (cartunista e músico pernambucano) fez a capa do disco. Inclusive modificaram, não era exatamente assim. Não quiseram pagar Laílson direito e fizeram essa maquiagem. Na capa original, a ave não estava estática, ela voava. Tinha uma caveira de boi, uma coisa nordestina. Porque mesmo sendo rock, tínhamos uma musicalidade do Nordeste.

Conta uma história interessante dessa época...
Essa história é interessante e inédita. O pessoal estava tocando com Alceu Valença, entre janeiro e fevereiro de 75. Alceu estava montando um show em São Paulo e a Globo queria fazer um quadro do Fantástico com ele. Até que um dia a mãe de Ivinho ligou lá pra mim dizendo que o Ave Sangria tinha que ir pro Rio de Janeiro. Eu fui à casa dos meninos avisá-los que tinha coisa pra fazer no Rio. Passou o tempo, quatro ou cinco dias e outro recado da mãe de Ivinho: “Almir, leve o Ave Sangria pra lá”. Daí eu fui à Rede Globo daqui saber o que estava acontecendo e eles confirmaram com o Rio. Dei o nome completo de todos e viajamos por conta da Globo. Quando chegamos lá, não era pra ser a gente, apenas os meninos que acompanhavam Alceu. Mas a Globo ligou pra Continental e pediu que ela bancasse os nossos custos. A Continental aceitou, mas colocou a condição de também fazermos um Fantástico. Gravamos o especial, mas nunca foi ao ar, porque o grupo acabou.

Mas vocês tinham consciência de que estavam fazendo uma música de vanguarda?
Com certeza. A idéia da gente, primeiramente, era de fazer uma música que expressasse o que a gente era. Vínhamos de uma classe operária, dizíamos o que pensávamos, aquilo chocava. Éramos influenciados pelo rock ‘n’ roll, pelo movimento existencialista e hippie, por toda essa contracultura que estava surgindo no mundo. Então, resolvemos aderir a esse tipo de pensamento, porque era a nossa própria natureza. Mudamos até de hábitos. Porque era o seguinte: naquela época, quando a gente se encontrava com as meninas, não tinha essa história de beijo no rosto não, era aperto de mão. Isso de usar o cabelo grande não existia, das meninas andarem junto com os meninos, só se fosse com o irmão. Então, a contracultura daquela época modificou também a forma de viver das pessoas, o relacionamento ficou mais aberto, até as diferenças das classes sociais ficaram menos separadas. Ali na Vila tinha um pessoal burguês, mas a gente se relacionava bem. O clube Náutico, no entanto, só era freqüentado pela burguesia. Eu ia para o América, que era mais povão (risos).

E dentro desse contexto de contracultura, onde entravam as drogas?
A meu ver são coisas que tiram você do objetivo principal: a música. Hoje em dia eu não sinto nenhuma falta de bebida, de nada. Talvez eu tenha superado isso, mas em outras épocas eu até tenha precisado por conta das minhas carências financeiras, emocionais e profissionais. Só que eu acho que existem outros mecanismos pra você compensar essas faltas sem precisar agredir o corpo e a mente.

O livro do jornalista José Teles, Do Frevo ao Manguebeat, é fiel àquela época?
Não. Quando as pessoas falam de Ave Sangria só publicam o que Marco Polo ou Ivinho dizem. Tem coisas que aconteceram naquela fase do Ave Sangria que eles não contam. Teles me procurou, mas tem coisas que eu falei ou falo, que não sai. Quem começou essa banda fui eu e ninguém do Ave Sangria fala isso e nem está no livro de Teles. Quem tocou no Ave Sangria deveria dizer como realmente foi, mesmo que a mídia puxe para um lado. É a recompensa que todo músico quer, no mínimo. E outra coisa, não seríamos nada sem os amigos que nos apoiavam.

Você tem algum ressentimento por isso?
Nenhum pelo seguinte: você pode considerar que uma coisa é um castigo ou uma oportunidade. Eu não sei o que seria de mim se o Ave Sangria tivesse dado certo. Eu não sei o que seria de nós... Será que ia dar certo? A gente presume que seria melhor, não é verdade? Mas eu acho assim, tudo na vida a gente tem que utilizar como oportunidade. Até aquela história da proibição do “Seu Valdir”. Olha, até hoje o pessoal comenta. João Alberto (colunista e jornalista local) chega à televisão e diz que aquilo era um atentado aos bons costumes e que não gostava.

Aí vem a pergunta que não quer calar: Por que o Ave Sangria acabou?
Bem, eu acho que tem vários aspectos. Mas o principal é: um grupo sem a estrutura financeira, não consegue se sustentar. Eu pelo menos nunca tive um contrabaixo na minha vida... Israel não tinha bateria... A gente não tinha nada. Nós tínhamos uns violões, violas e guitarras. E aí, depois que o disco começou a tocar e foi proibido, aquilo foi um choque muito grande pra gente. Teríamos que começar da estaca zero. Continuamos tocando até o final de 75, que foi quando veio o Festival Aventura e a gente não se inscreveu. E o pessoal foi definitivamente tocar com Alceu, porque precisavam de grana. Mas quero deixar bem claro que Alceu não teve nada a ver com o fim do grupo, como se comentou na época. Os meninos é que não queriam mais o Ave Sangria. Se hoje eu fosse fazer o Ave Sangria, com os mesmos músicos, mas com estrutura, seria muito melhor. Com dois anos de Tamarineira tínhamos mais de cem músicas. E era assim, eu fazia uma música e mostrava a Marco e ele depois chegava com uma pra mim e assim por diante. Teve até uma matéria feita por Teles em que Laílson dizia que eu e Marco tínhamos rivalidade. Nunca teve isso. Pelo contrário, a gente se estimulava.

Existe alguma possibilidade de volta do Ave Sangria?
Existem algumas dificuldades. Marco não quer mais seguir a carreira musical. Se chamar Ivinho pra tocar, ele toca. Rafles também. Agricinho não dá mais. Paulo Rafael vive no Rio de Janeiro. Então, é por tudo isso que se torna complicado. Não é nada pessoal, mas cada um seguiu a sua vida. Eu continuei com o meu trabalho solo, porque não sei viver sem a música. Tocava por ali e acolá e isso já me alimentava. E digo mais, se eu tivesse tido a oportunidade de ser apenas músico, não teria sido engenheiro.


* Entrevista publicada originalmente na Revista Coquetel Molotov nº1